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Mostrar mensagens com a etiqueta ficçao; estupidez; porque gosto de historias tragicas.. Mostrar todas as mensagens
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sexta-feira, 15 de abril de 2011
the end
Vi-me perdida. Sozinha. Nao era a primeira vez, nem a segunda. E todos sabiam que nao ia ser a ultima. Todos me avisaram enquanto era tempo. Todos me agarraram sempre que me balançava sobre o buraco em que queria cair. Desta vez nao. Desta vez, cai. E bati bem la no fundo. As lagrimas vieram-me aos olhos naquele buraco escuro. Tentei prende-las. Tinha prometido a mim mesma nao voltar a chorar pelo que quer que fosse. Nao ia falhar mais uma promessa. Tinha a garganta seca, queria gritar mas o grito nao saia. Fiz força, pus a cabeça para cima, fiz de tudo para elas nao cairem. Mais uma vez nao consegui ser mais forte do que qualquer coisa. Elas cairam, uma a uma. O meu rosto foi ficando molhado. Pensei como ia dar a volta por cima. Como ia sair dali. So vi uma saida. Levantei-me. Caminhei descalça pela rua. Era Verao, nao me importava se a estrada estava a escaldar, ou se estava gelada. Eu nem sentia bem a temperatura. Estava descontrolada, desorientada, confusa. Cheguei á estaçao, comprei uma passagem ate ao Porto. Estava num estado lastimavel. Houve pessoas que chegaram a sentar-se ao meu lado. Uns perguntavam se tinha erva, outros davam-me dinheiro para comprar comida. Outros sussuravam-me que a vida nao depende so de uma pessoa. O comboio chegou. Entrei. Sentei-me no fundo do comboio. Sabia que o telemovel ia começar a tocar nao tarda. Tocou vezes sem conta. Desliguei-o. Sabia que mqis tarde iria precisar dele. Isulei-me de todo o barulho. Olhei pela janela, e vi tudo. O passado, o presente. Os choros, os gritos. As quedas, as desilusoes. Os sorrisos, os orgulhos. Vi tudo passar a minha frente. Custou tanto nao conseguir mudar nada. Cada vez me sentia mais fraca, e sem forças para andar. Horas mais tarde, consegui chegar. Sai. Ainda tinha muito para andar. rastejei-me pelos passeios agarrando-me aos postes e bancos. Ali parecia toda a gente tao feliz. Sem problemas. Com boas vidas. Nada como eu. Familia destruida. Namorado morto. Pais separados. Olhada de lado. So me restava uma pessoa. Uma. Continuei a caminhar. So tinha visto aquela casa uma vez, a unica vez que tive dinheiro para ir ate la. Subi as cinco escadas da entrada. Sentei-me. Precisava de ganhar coragem para voltar ali apos tantos anos sem ter dado noticias. Alem do mais tinha andado muito, nao tinha mais forças. Levantei-me. Soltei o cabelo, e toquei a campainha. Ela abriu-me a porta. Estava dois centimetros mais baixa que eu. Tinha o cabelo castanho claro, como da ultima vez que a vi. E tinha uma argola no nariz. Ficou os minutos seguintes com a porta aberta, a oberservar-me. Olhou-me nos olhos. E eu percebi. Retribui-lhe o olhar como quem diz "desculpa". Abraçou-me, nao consegui retribuir. Estava acabada. Senti os meus olhos a fecharem, e o meu corpo mole, a cair-se sobre os braços dela. Era o meu fim, pensei eu. De repente abri os olhos, estava numa ambulancia. A Maria estava ao meu lado, segurava-me a mao com todas as suas forças e chorava. Gritava para eu me aguentar, que era desta vez que iamos ficar juntas. No meio de tanta gritaria descobri que ela tinha cancro. E que iria morrer em breve. Fechei os olhos, a unica pessoa que tinha no mundo ia morrer. De nada valia continuar a lutar por mim mesma. Ela leu-me esse pensamento, começou a gritar enquanto chorava, para me aguentar, e que eu ia ficar em boas maos. E que nao podia desistir pelo facto de ela ter cancro, para me lembrar de todos os anos que passamos juntas. Fechei os olhos. No hospital informaram-me que estava demasiado fraca, e que precisava de me alimentar. Mas que estava bem, e podia ir para casa. Sai dali. A Maria estava a minha espera. Deu-me a mao, e enfiou-me para dentro do carro. Paramos numa pastelaria, comprou-me um bolo e um sumo. Agradeci-lhe. Fomos ate casa a pé. Queriamos falar um pouco. Fomos a maior parte do tempo caladas. Ate que ela disse ''Entao e o Rafael? Como estao as coisas?'' Olhei para ela, calei-me e disse ''Ele morreu a dois dias Maria.'' Ela nao sabia o que dizer, entrou em panico. Começou a chorar. Eles tinham sido grandes amigos. Pegou nos meus braços. Puxou-me a camisola para cima. Nao tinha cortes. So as marcas dos de ha muitos anos. Entramos em casa. Fomos para o quarto dela. Ela perguntou-me que se passava. Eu simplesmente dissse ''A minha hora chegou Maria. É o fim''. Ela percebia. Agarrou-me a cara, e deu-me um estalo. E disse ''Mas tu estas tonta? És a melhor pessoa que existe neste mundo. Os teus pais nao te dao o devido valor, luta para o ter. O teu namorado morreu, ultrapassa isso, demore o tempo que demorar. Eu sei, sei que sou a unica pessoa que tens, mas tens de deixar de sonhar e pensar que vai ser sempre tudo mau. Ou que vai ser sempre tudo bom. Andares-te a espetar com seringas cheias de merda la dentro, nao te vai levar a lado nenhum. E nem me tentes mentir, porque eu sei bem o que digo. Conheço-te melhor do que qualquer pessoa. As seringas so te vao levar a morte, e nao é saida para nada. Ficas aqui a viver, o tempo que for preciso. Prometi que nunca te ia abandonar, e nunca o vou fazer. Amo-te como sempre amei. És a minha melhor amiga, e a unica pessoa que consegui amar em todo o Mundo. Vou morrer em breve, e tu vais ser forte e aguentar isso tudo. Eu vou estar sempre ao teu lado, sempre. Eu nunca vou amar nenhuma rapariga, nem nenhum rapaz como te amo a ti. Percebe isso duma vez. Percebe que tens de lutar pela vida.'' Comecei a chorar, agarrei-me a ela. Choramos juntas. Nao queria saber o que ia acontecer depois disto tudo. Queria ficar ali contigo para sempre. Ai, nao te estou a sentir completamente bem. Maria!
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